Loteria

Se a chance é uma em 50 milhões, por que apostamos na Mega-Sena?

Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Do ponto de vista matemático, apostar em loterias não faz sentido. Psicologicamente, a felicidade só costuma durar até a derrota quase inevitável. E, na prática, quem sempre sai ganhando é o governo (o valor pago refere-se a apenas 43,5% do total de apostas). Mesmo assim, quando o prêmio é grande o suficiente, como os R$ 120 milhões sorteados para os assessores do PT nesta quarta-feira, as lotéricas enchem com pessoas cheias de esperança de ganharem a bolada. O GLOBO conversou com um matemático e um psiquiatra para entender o que está por trás da decisão que milhões tomam para apostar na loteria e, particularmente, em bolões como o que rendeu o prêmio aos petistas.

Segundo a Caixa, a chance de ter um bilhete sorteado com uma aposta de seis dezenas é de uma em 50 milhões. Para o psiquiatra Hermano Tavares, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), contudo, esse número tem, na prática, pouco significado.

— As pessoas não entendem como funcionam números relativos. Uma chance em 1 milhão, uma chance em 100 milhões, não faz muita diferença. Acabamos tendo uma abordagem binária nesses casos: zero ou um. Ou seja, se não apostar, a chance de ganhar é zero. Se apostar, a chance existe, é diferente de zero — explica.

Ao comprar um bilhete de loteria, explica o professor, muitos apostadores não tomam uma decisão racional, mas emocional.

— Alguém pode economizar 1 real por dia e comprar um carro de luxo no final da vida ou comprar um bilhete da loteria e uma parcela desse sonho agora. Então, pelo prazo daquela semana em que aguarda o sorteio, esse apostador vai sentir como se quase tivesse esse carro — explica.

Para aumentar um pouco as chances, muitos apostadores resolvem se unir com amigos, colegas de empresa ou familiares nos chamados bolões. Ao invés de apostas individuais, conseguem arrecadar o bastante para fazer apostas maiores. Segundo Hélio José de Abreu, professor de estatística do Mackenzie, quanto mais combinações apostadas, maiores as chances de vitória. Mas o professor avisa: não se engane, a chance de vitória continua sendo muito baixa, quase zero.

No caso de uma aposta única de seis dezenas, a chance do bilhete ser o premiado é de 0,00000002%. Segundo o professor, o grupo de petistas que fez 49 cotas de R$ 10 deve ter conseguido apostar cerca de 140 combinações diferentes. A chance deles aumentou, mas segundo o professor, ela continua muito mais próxima de zero: aproximadamente 0,0000028%. O professor admite que os números são tão fora da realidade e que são difíceis para o cidadão comum enxergar. Por isso, o efeito psicológico é preponderante da decisão de apostar. Ganhar na Mega-Sena seria como escolher, de olhos vendados, a única pessoa vestindo verde em um grupo com outras 49.999.999 milhões de pessoas vestindo vermelho.

Se participar de um bolão aumenta as chances de vitória, o professor Abreu faz questão também de lembrar a principal desvantagem desse tipo de aposta: os ganhos são divididos. Por isso, segundo o professor, é recomendável participar de um bolão apenas quando o prêmio envolve grandes quantias, como os R$ 120 milhões de quarta-feira ao invés de concursos com prêmios menores. Como a chance de vitória nos dois casos são ínfimas, tentar ganhar sozinho um prêmio menor pode fazer mais sentido.

— Quando o prêmio é menor, dividir entre 40 pessoas não resolve a vida de ninguém. Por exemplo, dividir R$ 2 milhões entre 40 apostadores dá R$ 50 mil para cada um. É bom, mas não resolve a vida de ninguém. Por outro lado, com o prêmio acumulado, mais pessoas ficam animadas a participar e, se houver sucesso, a premiação é maior para cada um — afirma.

Abreu destaca que raramente faz sua fezinha na Mega-Sena mas admite que eventualmente tenta a chance em bolões na Mega da Virada.

— A probabilidade de vitória é muito baixa, mas quando tem bolão na Mega da Virada, acabo entrando. Vai que alguém está com a sorte — afirma.

Por que apostamos, então?

Também coordenador do Ambulatório do Jogo da USP, que atua no tratamento de viciados em jogo, o psiquiatra Hermano Tavares apresenta algumas explicações para as filas recorrentes de cidadãos esperançosos em busca das dezenas certas, apesar de todas as explicações racionais que apontam para uma chance quase impossível de vitória. Segundo ele, boa parte do motivo está na forma como o nosso cérebro foi treinado para enxergar o mundo.

— A mente humana foi esculpida ao longo de centenas de milhares de anos para lidar com eventos da natureza. E eventos da natureza não são aleatórios. Para fazer um trocadilho, eu posso apostar que as temperaturas vão aumentar porque estamos nos aproximando do verão. Não existem padrões no sorteio da loteria, mas procuramos eles mesmo assim — diz.

O professor apresenta um exemplo simples da nossa tendência em buscar padrões. A maioria das pessoas, ao receberem dois bilhetes da Mega-Sena, um com as dezenas 01-02-03-04-05-06 e outro com as dezenas 12-18-24-31-47-52, tende a escolher o segundo, mesmo que a chance de ambos os jogos serem a mesma.

O cérebro, diz o professor, também está acostumado a pensar que a prática tende a aumentar a capacidade de desempenhar certas tarefas. Essa mesma lógica, lembra, não se aplica à loteria: não há diferença entre um jogador experiente e um iniciante.

— Essa irracionalidade existe na mente de todos nós. Em alguns, contudo, existe de forma mais pronunciada. Esses são aqueles mais vulneráveis e podem desenvolver o quadro de transtorno do jogo. Por isso, é importante lembrar: loteria é diversão e, se você apostar, é para apostar um dinheiro que pode perder. Se não pode desperdiçar esse dinheiro agora, se ele fará falta, então você não deveria apostar — afirma.

Tavares lembra, também, que independentemente do sorteio, o vencedor é sempre o governo. Em cada concurso, o valor do prêmio é 46% do arrecadado. O restante vai para o orçamento federal e é reinvestido em áreas como o esporte e a segurança pública.

— Eu não tenho uma visão positiva de loterias, mas mesmo tirando esse viés e olhando racionalmente: se estão disponibilizando R$ 120 milhões, é porque devem ter arrecadado mais do que R$ 240 milhões. O que isso significa? Imposto. Quem gosta de pagar imposto? Minha dica para o Paulo Guedes é deixar de se indispor com o Bolsonaro ao propor a criação de uma nova CPMF: basta propor uma nova loteria e as pessoas farão fila para pagar — brinca o professor. (Globo Online)

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